15 de julho de 2010

Museu das Minas e do Metal

Mais de cem anos separam o edifício erguido para receber a Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais e o projeto do Museu das Minas e do Metal. A edificação construída em 1898 hoje faz parte do projeto denominado Circuito Cultural Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Com a transferência do centro administrativo para 40 km do centro da capital mineira, em conjunto de Oscar Niemeyer (AU 194), os edifícios da praça passam por restauros e pela transformação de seus usos. Com projeto arquitetônico de Pedro e Paulo Mendes da Rocha e museografia de Marcello Dantas, a mesma equipe do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo (AU 146), o recém-inaugurado Museu das Minas e do Metal tem como proposta destacar a importância cotidiana e econômica dos minérios e suas implicações culturais e sociais. "Nosso trabalho foi o de preparar o espaço arquitetônico para receber a exposição", diz o arquiteto Pedro Mendes da Rocha.



A compreensão de que um museu não deve guardar antiguidades, mas produzir conhecimento foi fundamental para o projeto. A tarefa primordial consistiu em assegurar condições de se frequentar o edifício para visitação - criar grandes galerias e resolver as circulações verticais dimensionadas para esse novo fluxo. Assim, o projeto aproveita o anexo construído em 1962, na parte posterior do edifício, para aumentar um pavimento. "A relação entre essas duas construções criava um pátio interno muito interessante, uma vez que ficou com o pé-direito do edifício inteiro mais a altura do anexo", ressalta Pedro Mendes. Outra providência foi instalar uma claraboia para resolver a questão da iluminação. Segundo o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, o desenho da claraboia é inexorável - por isso também o usou na Pinacoteca de São Paulo.

Aqui, trata-se de uma malha estrutural metálica, com vazios preenchidos por vidro, que permite a entrada de luz natural e faz as vezes de calha para recolhimento das águas pluviais. A iluminação zenital cria atmosfera agradável na área de convivência que deve receber café, loja e acesso para as salas de exposição. Para solucionar o problema de circulação vertical (havia apenas a escada original da construção, na entrada do edifício), o projeto optou por instalar um elevador e uma escada, ambos na parte externa do prédio.

O elevador está em uma torre independente executada em estrutura metálica com fechamentos de vidro e chapa metálica e se localiza em uma das laterais do edifício. A nova escada, nos fundos do anexo e também dentro de uma caixa metálica, estabelece uma interligação entre as novas galerias e propicia melhor fluxo do público. O palacete, tombado pelo patrimônio histórico, foi meticulosamente restaurado, como as pinturas decorativas da época, feitas no teto e nas paredes, que foram refeitas a partir de amostras e fragmentos originais.

MUSEOLOGIA
O acervo documenta duas das principais atividades econômicas de Minas Gerais: mineração e metalurgia. Utiliza, de forma criativa, tecnologia de última geração para mostrar o universo das rochas, os processos de transformação dos minérios e a importância deles para o desenvolvimento social e cultural. Em ambientes virtuais, totalizam 18 salas de exposição e cerca de 50 atrações em 3D e 2D. Entre as salas, destaca-se o Chão de Estrelas, um planetário invertido com lunetas e telescópios apontados para o chão de minérios e gemas.

Atravessando o piso elevado de vidro iluminado, o visitante descobre, a seus pés, os minérios, as pedras preciosas e as pepitas. Na sala chamada Mapa das Minas, um mapa interativo das jazidas minerais ilustra a evolução histórica da atividade metalúrgica mineira desde o período colonial. Sensível ao toque, o mapa se transforma na interação com o visitante. Na sala Miragem, graças a um jogo de espelhos côncavos, os minérios voam pela sala, ao alcance das mãos. Na área sobre metais, uma sala traz tubos metálicos, luzes e projeções que tornam tangíveis a tabela periódica de elementos químicos.

Ao se tocarem, os tubos produzem sons e projetam no chão o símbolo químico correspondente. Outras salas mostram a combinação de metais e a formação de ligas, as propriedades dos metais e seus processos de produção e manipulação, a comparação do valor tangível dos metais com produtos, a logística da extração até as siderúrgicas etc. Na sala chamada Vale quanto pesa, pode-se avaliar a quantidade de metais que cada pessoa carrega em seu corpo.

REINVENTING THE PAST
The 1898 building is now part of the project called Praça da Liberdade Cultural Circuit, in Belo Horizonte, and received the recently inaugurated Mines and Metal Museum, whose objective is to highlight the day-to-day and economic importance of minerals and their cultural and social implications.  The architects' primary task was to ensure the building's visiting conditions - to create large galleries and to solve the vertical circulations dimensioned for this new flow.

Thus, the project takes advantage of the 1962 annex, at the bottom part of the building, to add one floor. "The relationship between these two buildings created a very interesting internal patio, as it has the total building height plus that of the annex", emphasizes Pedro Mendes. Another provision was to install a skylight to provide lighting - a metal mesh structure, with glass-filled voids, allowing the entrance of natural light and, which acts, at times, as a trough to collect rain.

The project also had an elevator and a stairway installed, both at the outside of the building. The elevator is inside an independent, glass and metal sheet-enclosed, metal structure tower. The new stairway, at the back of the annex and also inside a metal box, establishes an interconnection between the new galleries and furthers better public flow. The small palace, registered by the Historical Patrimony, has been meticulously restored.
O museu, segundo Paulo Mendes da Rocha
Autor de museus importantes no Brasil, como o MuBE, e de recuperação de espaços para receber exposições - caso da Pinacoteca e do Museu da Língua Portuguesa (AU 146), todos em São Paulo -, além de projetos internacionais como o próximo Museu Nacional dos Coches, em Lisboa, Paulo Mendes da Rocha recebeu a equipe de AU para conversar sobre seu mais recente projeto concluído, o Museu das Minas e do Metal. Confira trechos da conversa, que traz análises sobre a arquitetura e a função de espaços museológicos.
Museu como necessidade
É extraordinário rememorar a ideia de Maiakovsky de que o povo inventou o divino. Se o povo é o inventor, ele tem que cair no museu. Mas ele não tem consciência de que é o inventor. Se tivesse consciência de que a língua é feita da angústia, da urgência da necessidade de falar - e, portanto ele, povo, é quem inventa a língua -, ele também iria ao museu, se o museu estivesse à altura dessa monumentalidade que a questão requer. 
Museu e educação
A educação é fundamental, no que respeita ao hábito de visitar museus. A criança que está na escola hoje e aprendeu a visitar museu, quando adulta certamente continuará visitando museu. Sejamos francos: a população de um modo geral não é culta o suficiente para fazer disso um hábito. Se for para educar, vai-se educando pouco a pouco. É muito difícil, nesse sentido, provocar mudanças da noite para o dia, a não ser que se trate de uma pantomima qualquer.
Uma visão museológica O que fazer de um espaço museológico, mantendo a ideia de museu? Trata-se de assunto ligado especialmente à educação. O Museu da Língua Portuguesa, por exemplo, sugere muito quanto aos recursos utilizados. Com imagem e som você pode fazer um discurso sobre a questão da língua. A língua tem dois momentos muito interessantes: suas origens e a energia atual de sua transformação. Os 20 milhões de habitantes de uma cidade como São Paulo devem estar reinventando a mesma língua todo o dia.
A dimensão museológica da obra arquitetônica
Qualquer obra de arquitetura tem uma carga museológica muito forte, seja museu ou não. Um exemplo: se olharmos hoje um prédio como o Copan, poderemos vê-lo como um museu da casa. Se formos à casa de um caboclo, que tem dois cômodos, estaremos diante de um quarto e sala do Copan. Só que este tem elevador e está no centro da cidade. Em lugar do fogo, você tem luz elétrica. Portanto, qualquer obra de arquitetura tem uma dimensão museológica absoluta.
Paradigmas de preservação
A definição de quais são os paradigmas de conservação de monumentos históricos é uma questão que tem de ser discutida com o patrimônio. A política de preservação de monumentos deve ser permanentemente revista. Um exemplo extraordinário é o Louvre. Tudo que foi feito lá poderia parecer impossível. Fez-se um novo e atual elogio da mesma coisa. Se não atualizamos o uso do edifício ele não irá conservar memória alguma; ele irá morrer.
A arquitetura dos museus
A museografia de um museu tem que ser dinâmica, tem que ser inventada. Você pode afirmar: a arquitetura não realiza museus. Ela coloca espaços disponíveis para que você realize em seus recintos a exposição que  você quiser.

Fonte: Revista AU



CONTEÚDO EXTRA
Passeio virtual no Museu das Minas e do Metal, de Pedro e Paulo Mendes da Rocha



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